Slide3 Pedra da Macela Lindas Cachoeiras

Município de Cunha

A atual região de Cunha – antiga Facame que veio a se denominar Facão ainda nos primórdios do referido século –, desde o início do século XVII já era palmilhada por paulistas (vicentinos) e paratienses, que aproveitavam as trilhas dos indígenas guaianases (muitas delas velhos caminhos utilizados por animais, e que foram sendo ampliados pelos indígenas na Serra do Mar, por onde estes transitavam), para atingir o extenso campo de caça e o constante local de troca de produtos agrícolas: o Vale do Paraíba.
A primeira incursão oficial à região foi a entrada exploradora organizada pelo filho do então governador do Rio de Janeiro, Martim Correia de Sá, saindo daquela localidade com setecentos homens brancos e dois mil indígenas escravizados, no ano de 1596. A expedição transpôs a serra de Paraty em 1597 e, ao atingir a região que logo em seguida se denominaria Facão, atravessou os rios Paraibuna e Paraitinga, alcançou as margens do rio Paraíba entre São José dos Campos, Taubaté e Pindamonhangaba, e adentrou as terras do Sul de Minas Gerais.
A passagem de Martim Correia de Sá pela picada da serra de Paraty, sertão adentro, evidencia a importância desse caminho, que passa, a partir de então, a ser utilizado por outras expedições, não apenas as oficiais, como também as particulares.

O Desbravamento
Com a descoberta das primeiras jazidas de ouro nas “minas gerais”, a partir de 1695 é que a região do Facão começa a ser palmilhada e desbravada de modo mais acentuado por aventureiros portugueses, por portugueses já radicados na região vale-paraibana e por outros moradores desses locais, todos à procura de enriquecimento fácil nas “Gerais”. Desse modo, a região do Facão torna-se passagem obrigatória como “boca do sertão”, no percurso litoral – região das “minas gerais” –, e começa o povoamento desordenado do Facão.
Devido ao trânsito intenso à extensa região do Facão, o local se torna também chamariz de vadios, desertores da Marinha e até de criminosos, que se ajuntam aos novos moradores da região e vão compondo esparsamente aquilo que logo se denominaria povoado.
Trânsito agitado. De um modo geral, o lugarejo sofre consequência dessa azáfama, que durou por volta de 30 anos – tempo de todas as jazidas serem descobertas. O povoado do Facão é o local de descanso e de provimento das tropas de ouro coloniais (ouro em pó, inicialmente carregado às costas pelos escravos).

O Clima, o Vale e a Montanha
A excelência do clima foi um dos fatores que justificaram o estabelecimento dos europeus e demais pessoas na região do Facão, entre o final do século XVII e o começo do século XVIII.
No trajeto obrigatório para as “minas gerais”, os exploradores e aventureiros portugueses, sesmeiros da região vale-paraibana e demais pessoas, que se tornariam os primeiros povoadores do Facão, tiveram de se curvar ao impacto causado pelo panorama agradável, deslumbrante e ímpar da majestosa região. E, em contato com a terra, viram-na fértil, dotada de clima ameno, salutar e de águas límpidas, diferentes daquelas situadas no litoral, local das primeiras povoações.

A Povoação do Facão
De antigos povoamentos dispersos, o extenso espaço passou a ter a sua fundação oficial como Povoação do Facão em 1724, transformando-se, logo mais, entre 1748 – 1749, em Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão, e atraindo grande fluxo de interessados no solo fértil para a agricultura, aliado ao clima temperado; e ainda nas atividades de tropeirismo, tudo isso até aproximadamente o início do século XIX, quando a região já não mais dispunha de terras agricultáveis localizadas em setores privilegiados que margeavam os principais meios de acesso.
Um dos núcleos esparsos de povoamento da região do Facão se localizava nas cercanias da atual cidade, onde havia a capelinha de Nossa Senhora do Facão, erigida antes de 1700, no Alto do José Dias ou Alto da Mantiquira, bem na lateral esquerda do acesso ao atual bairro urbano Vila Rica. Como toda a terra do Facão não era ainda considerada povoação oficial, essa capelinha, situada na parte alta da região – e que tinha a imagem de Nossa Senhora do Facão e outras imagens, segundo dados históricos –, não representou, oficialmente, a primeira capela da região e nem marco do início da povoação.

Fundação
A fundação oficial da região do Facão deu-se em 1724, pela Vila de Santo Antonio de Guaratinguetá, a qual pertencia, com a edificação da Capela de Jesus, Maria e José, pelo povoador Capitão Luiz da Silva Porto, em seu sítio, no bairro rural da Boa Vista. Primeiramente, no início de 1724, um núcleo mais organizado de moradores se estabeleceu no bairro rural do Campo Alegre, aquém da Boa Vista; e ainda nesse mesmo ano, o referido grupo de povoadores se deslocou para a Boa Vista – antigo pouso de tropeiros, e aí foi construída a citada capela pelo dono das terras, iniciando-se consequentemente, a povoação oficial do Facão – que era a denominação antiga de Cunha.
Por outro lado, as terras em derredor da citada capelinha do Alto da Mantiquira atraíam um contingente razoável de povoadores com maior expressão social e econômica, por se situarem no meio do roteiro das tropas, numa região bem aprazível. Essas terras – que se seguiam do Bairro do Jacuizinho até o morro do Facão (Morro Grande) – pertenciam ao Capitão José Gomes de Gouveia e sua mulher, dona Maria Nunes de Siqueira.
Desse modo, com o interesse de povoadores em se estabelecerem em suas terras, o Capitão José Gomes de Gouveia procedeu a transferência da Capelinha de Nossa Senhora do Facão, com todas as suas imagens e alfaias, para a capela recém-inaugurada em 1731, no planalto contíguo em suas terras, denominando-a Capela de Nossa Senhora da Conceição do Facão.
Uma vez desativada a capelinha do Alto da Mantiquira, a região, a partir de 1731, passa a contar com duas capelas: A capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, erigida em 1724 e que foi o marco oficial da povoação e fundação da região do Facão; e a capela de Nossa Senhora da Conceição do Facão, inaugurada em 08 de dezembro de 1731.
A capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, também denominada popularmente capela de São José, ou capela da Boa Vista, desde a sua edificação em 1724, mantinha capelão particular para celebrar missas a expensas do seu fundador, Capitão Luiz da Silva Porto, ou ainda da autoridade episcopal da época. Após a devida licença para sua bênção, efetivada em 1º de abril de 1742, pelo vigário da vara do Distrito, padre José Alves Vilela, a capela também passou a realizar casamentos e batizados.
De 1742 a 1746, em ambas as capelas se celebravam concomitantemente missas e se realizavam casamentos e batizados. A capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, nos anos subsequentes à sua bênção em 1742, também atuou como freguesia, pois o instituidor mantinha pároco na mesma, a qual chegou, por esse motivo, a ser considerada freguesia interina, devido inclusive à sua importância na região do Facão, o que evidenciava a prevalência da capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista sobre a recém-edificada capela de Nossa Senhora da Conceição do Facão.

Sinopse Histórica
– A povoação e fundação oficiais da região do Facão se deram com a edificação da capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, em 1724.
– A inauguração da capela de Nossa Senhora da Conceição do Facão, construída pelo Capitão José Gomes de Gouveia, em suas terras, ocorreu em 8 de dezembro de 1731.
– A capela de Nossa Senhora da Conceição do Facão tornou-se sede da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão (criada entre 1748-1749); enquanto a capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista continuou funcionando normalmente, para a alegria de seus devotos.
– Em 15 de setembro de 1785, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão é elevada à condição de Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha. O novo nome é dado em homenagem ao então governador da Província de São Paulo, Capitão-General Francisco da Cunha e Menezes. Desse modo, emancipada a nova vila política e administrativamente da Vila de Guaratinguetá, cria-se município próprio, com sua primeira câmara municipal, cadeia e pelourinho.
– Em 20 de abril de 1858, a Vila de Cunha eleva-se à condição de Cidade pela Lei Provincial de Nº 30, sancionada pelo presidente da Província, Senador José Joaquim Fernandes Torres através do decreto da Assembleia Provincial de 19 de abril de 1858.
– Em 29 de março de 1883, o Município torna-se Comarca por Lei Provincial de nº 27, classificada por decreto do Ministério da Justiça de 23/12/1889, e instalada em 10/01/1890.
– O Distrito de Campos de Cunha (ex-Campos Novos de Cunha) foi criado por Lei Municipal de nº 5, de 08/03/1872. O topônimo Campos Novos de Cunha foi simplificado para Campos de Cunha pelo Decreto-Lei estadual de nº 9073, de 31 de março de 1938, e fixado pela Lei nº 9775, de 30 de novembro de 1938.
– Em 28 de outubro 1948, cria-se a Estância Climática de Cunha.
– Em 12 de setembro de 1972, através da Lei Municipal de nº 222, criaram-se o brasão e outros símbolos municipais, de autoria de Manoel Galvão Moreira e confeccionados oficialmente pelo heraldista Alcinoé Antônio Peixoto de Faria.
– Criado em 1998, o Hino Municipal, cuja letra fora elaborada pelo Professor Ernesto Veloso dos Santos, recebeu a melodia, composta por Antonio Benedito dos Santos (Tonico Capítulo), e orquestração oficial para banda de música e coro, pelo Maestro Professor Victor Amato dos Santos. O Hino foi oficializado em 12 de maio de 1999, através da Lei Municipal nº 819/99.
– Aprovada na sessão ordinária realizada pela Câmara Municipal de Cunha em 20 de novembro de 2017, e sancionada no dia 24 de novembro do mesmo ano, a Lei Municipal nº 1569/2017 oficializou a capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista como o marco zero da Fundação de Cunha, assim como fixou a data de comemoração do aniversário local no dia 19 de março de cada ano, com a contagem da idade de Cunha a partir do ano de 1724.

Referências Bibliográficas

– Arquivo do Museu Francisco Veloso, Estância Climática de Cunha.
– Atas da Câmara Municipal de Cunha – 1947-1948.
– FERRAZ, Mário Sampaio. Cunha. São Paulo: Secretaria da Agricultura e Comércio do Estado de São Paulo / Diretoria de Publicidade Agrícola, 1940.
– SILVEIRA, Carlos da. Documentos Interessantes sobre Cunha. Revista do Arquivo Municipal: São Paulo, 1939.
– VELOSO, João José de Oliveira Veloso. A História de Cunha – 1600-2010 – Freguesia do Facão: A Rota da Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas. Centro de Cultura e Tradição de Cunha: São José dos Campos/SP: JAC – Gráfica e Editora, 2010.
– CUNHA, Mário Wagner Vieira da. O Povoamento no Município de Cunha In: Anais do IX Congresso Brasileiro de Geografia, II:641-49, 1944.

(*) Prof. João José de Oliveira Veloso
– Instituto de Estudos Vale-paraibanos – Museu Francisco Veloso
Dezembro de 2017

Localizada no alto Paraíba, o município de Cunha ocupa 1.410 km² de colinas e montanhas, aninhada entre as serras da Quebra-Cangalha, da Bocaina e do Mar. Limita-se com Ubatuba, São Luiz de Paraitinga, Lagoinha, Guaratinguetá, Lorena, Silveiras, Areias, São José de Barreiro no estado de São Paulo e Angra dos Reis e Paraty no estado do Rio de Janeiro.

A altitude media é de 1.100 metros e os pontos mais altos são o Pico da Pedra da Macela (1.840 metros) e o Pico do Cume (1630 metros). O clima é temperado e seco, com variações de temperatura de –3 a 15 ºC no inverno e de 15 a 25 ºC no verão.

População:

21.866 habitantes (12.167 – zona urbana / 9.699 –zona rural) fonte: IBGE Censo 2010

Área total do município:

1.407,319 Km²

Altitude média:

1.100 m – ponto culminante: 1.840 m (Pico da Pedra da Macela)

Clima:

temperado seco

Áreas verdes protegidas:

– Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Cunha

– Parque Nacional da Bocaina

Limites:

Norte – Guaratinguetá e Lorena

Sul: Paraty/RJ e Ubatuba

Leste – Areias, Silveiras e São José do Barreiro

Oeste – Lagoinha e São Luíz do Paraitinga

Localização:

entre as Serras do Mar, da Bocaina e Quebra-Cangalha

Bacia hidrográfica:

Rios Paraitinga e Paraibuna

Economia:

Pecuária leiteira e de corte – cultura do milho, feijão, batata

Produção de pinhão, cogumelos Shiitake e peixe (trutas)

Turismo: artesanato local e cerâmica de arte

Folclore:

congada, Moçambique, catira

Festas religiosas:

Festa do Divino, Semana Santa, Corpus Christi, Padroeira da cidade – Nossa Senhora da Conceição, 08 de dezembro

Festas regionais e culturais:

Festival de Verão e Fuscunha, Carnaval de rua, cavalaria de São Benedito, festa do pinhão, festival de inverno “Acordes na Serra”, festival gastronômico do Cordeiro Serrano, Expocunha, Festival de Cerâmica e Natal Luz

Riquezas naturais:

Pico da Pedra da Macela, Cachoeiras, Parque Florestal (remanescente da mata atlântica), Trilhas (Caminho do Ouro – Estrada Real).

Última parada dos tropeiros que percorriam a Estrada Real antes de chegar ao porto de Parati, Cunha é uma região de muitos encantos. Estação climática situada a 45 km de Parati e à mesma distância de Guaratinguetá, em meio à Serra do Mar e da Bocaina, é o município que conserva a maior reserva de Mata Atlântica do país. O que vale dizer que ali se encontram dezenas de cachoeiras, milhares de nascentes e de riachos que correm sobre pedras e uma vegetação abundante rica em ipês, manacás, quaresmeiras, sibipirunas e um mundo de árvores floridas que abundam na Mata Atlântica.

Cunha é também um importante pólo de cerâmica artística na América do Sul. Ali se instalaram, a partir de meados da década de 1970, ceramistas de formação japonesa que trouxeram para o Brasil uma técnica milenar de cerâmica artística, queimada a lenha em altíssima temperatura, em fornos chamados Noborigama. Muito atuantes, eles levaram adiante seu trabalho e formaram jovens discípulos que mais tarde abriram seus próprios ateliês.

Assim, a região tem hoje cinco ateliês de Noborigama em permanente funcionamento, um número que não se encontra mais nem no Japão (lá não há mais espaço para plantar lenha para queimar). Na década passada ceramistas de outras técnicas foram se radicando no município, que conta hoje com mais de vinte ateliês de cerâmica artística, produzindo peças de alta qualidade, nos mais variados estilos. Essa peculiaridade atrai, durante o ano todo, turistas de diversas regiões do país.

Em Cunha, é possível hospedar-se bem e comer bem. São mais de 40 pousadas com os mais variados tipos de acomodação e vários restaurantes que servem desde o trivial variado da comida caipira com influência mineira até a cozinha do interior da França, além de fondues ou receitas à base de trutas, pinhão e cogumelos shiitake, dos quais a região é grande produtora.

Outro grande produto da região é o sossego. A cidadezinha, pacata, não tem um único semáforo. Se alguém parar o carro para dar algum recado à comadre na calçada, quem está atrás espera pacientemente. Sob o céu azul e respirando um ar absolutamente puro, o visitante faz seus passeios às grandes cachoeiras, ao Parque Estadual da Mata Atlântica ou à Pedra da Macela, de onde se avistam 180 km de litoral, cuidando apenas para não atropelar vacas e galinhas pelo caminho.

Cunha começou a se constituir no final do século XVII como um local de parada e descanso de tropeiros. Durante o século XVIII o povoado que ali surgiu teve grande desenvolvimento, graças à movimentação de tropas que traziam o ouro de Minas para ser exportado para Portugal pelo Porto de Parati. Esse povoado, então, foi elevado à categoria de Vila e as trilhas que levavam ao porto foram calçadas pelos escravos que já estavam no país, trabalhando no desenvolvimento do Ciclo do Café, também exportado por Parati. A importância dessa atividade econômica, que foi fonte de imensa riqueza para o país no século XIX, trouxe grande desenvolvimento à região. Ainda hoje há remanescentes das trilhas construídas pelos escravos, que podem ser visitadas pelos turistas.

Em 1858 a Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha alcançou a categoria de cidade mas, em 1888, com a libertação dos escravos, a atividade cafeeira entrou em declínio e Cunha começou a perder a importância que tivera até então na economia do país. O relativo isolamento a que foi submetida a partir daí é provavelmente uma das razões pelas quais a região conservou, até hoje, seu ar pacato e a lembrança de suas tradições religiosas e caipiras.

Anos mais tarde, durante a Revolução Constitucionalista de 1934, Cunha voltou a receber a atenção do país. Por três meses os soldados paulistas combateram uma tropa da Marinha que pretendia chegar a São Paulo atravessando o Vale do Paraíba.

Finalmente, em 1948, a cidade recebeu do Governo Estadual o status de Estância Climática.

Texto: Ana Maria Sanches Tonussi

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